{"id":6861,"date":"2024-09-15T12:16:44","date_gmt":"2024-09-15T12:16:44","guid":{"rendered":"https:\/\/lusophonegoa.org\/?p=6861"},"modified":"2024-09-15T12:41:08","modified_gmt":"2024-09-15T12:41:08","slug":"saudades-de-goa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lusophonegoa.org\/en\/2024\/09\/saudades-de-goa\/","title":{"rendered":"Saudades de Goa"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-6865\" src=\"https:\/\/lusophonegoa.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Mil_Renato_foto_cropped-4x5-1-814x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"120\" height=\"151\" srcset=\"https:\/\/lusophonegoa.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Mil_Renato_foto_cropped-4x5-1-814x1024.jpg 814w, https:\/\/lusophonegoa.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Mil_Renato_foto_cropped-4x5-1-238x300.jpg 238w, https:\/\/lusophonegoa.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Mil_Renato_foto_cropped-4x5-1-768x966.jpg 768w, https:\/\/lusophonegoa.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Mil_Renato_foto_cropped-4x5-1-1221x1536.jpg 1221w, https:\/\/lusophonegoa.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Mil_Renato_foto_cropped-4x5-1-1628x2048.jpg 1628w, https:\/\/lusophonegoa.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Mil_Renato_foto_cropped-4x5-1-scaled.jpg 2035w\" sizes=\"auto, (max-width: 120px) 100vw, 120px\" \/><\/p>\n<p>It was certainly a return to Goa, says Renato Epif\u00e2nio, president of MIL, the International Lusophone Movement, even if we had never been there \u2013 as we were, in 2018. In an exclusive article for the Lusophone Society of Goa, Renato Epif\u00e2nio continues to say that looking, however, at the monuments, especially in \u201cVelha Goa\u201d, at the very typical neighborhood of \u201cFontainhas\u201d, in Panjim, at the names of the streets, of the people themselves, it was certainly a return. A return, certainly, bittersweet. This historical memory is progressively vanishing and, if this inertia and erosion continue, in a few decades almost nothing will be left. Please read the full article in Portuguese:<!--more--><\/p>\n<hr \/>\n<h2><strong>Saudades de Goa<\/strong><\/h2>\n<p>by Renato Epif\u00e2nio\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 September 15, 2024<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Que tem Goa, que magoa<br \/>\nmeu cora\u00e7\u00e3o portugu\u00eas?&#8230;<br \/>\n(\u2013 \u00cdndia sonhada em Lisboa,<br \/>\ndiz-me segredos de Goa,<br \/>\ndiz-mos baixinho de vez&#8230;)<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Que tem Goa, que destoa<br \/>\ndo mundo que \u00e0 volta sei?&#8230;<br \/>\n(\u2013 \u00cdndia das noites \u00e0 toa,<br \/>\ncanta-me a voz do Pessoa,<br \/>\nconta-me a volta do Rei&#8230;)<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Que tem Goa, qu&#8217;inda ecoa<br \/>\nnas \u00e1guas mortas do mar?<br \/>\n(\u2013 \u00cdndia, vem&#8230; moro em Lisboa&#8230;<br \/>\ndeixei meus barcos em Goa,<br \/>\npreciso de navegar&#8230;)<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Casimiro Ceiv\u00e3es, in Revista NOVA \u00c1GUIA, n\u00ba 2 (2\u00aa semestre de 2008)<\/p>\n<p>Foi decerto um regresso, ainda que nunca l\u00e1 tiv\u00e9ssemos estado \u2013 como estivemos, em 2018. Olhando, por\u00e9m, para os monumentos, sobretudo em \u201cVelha Goa\u201d, para o bairro t\u00e3o t\u00edpico das \u201cFontainhas\u201d, em Pangim, para os nomes das ruas, das pr\u00f3prias pessoas, foi decerto um regresso. Um regresso, decerto, agridoce. Essa mem\u00f3ria hist\u00f3rica est\u00e1 a apagar-se progressivamente e, se se mantiver esta in\u00e9rcia e esta eros\u00e3o, daqui a poucas d\u00e9cadas j\u00e1 quase nada restar\u00e1. Sendo que j\u00e1 n\u00e3o resta muito.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-6867\" src=\"https:\/\/lusophonegoa.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/pic-backwaters-goa-1024x768.jpg\" alt=\"\" width=\"260\" height=\"195\" srcset=\"https:\/\/lusophonegoa.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/pic-backwaters-goa-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/lusophonegoa.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/pic-backwaters-goa-300x225.jpg 300w, https:\/\/lusophonegoa.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/pic-backwaters-goa-768x576.jpg 768w, https:\/\/lusophonegoa.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/pic-backwaters-goa.jpg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 260px) 100vw, 260px\" \/><\/p>\n<p>Seria f\u00e1cil apontar o dedo a Portugal e aos restantes pa\u00edses lus\u00f3fonos mas, neste caso, \u00e9 a pr\u00f3pria \u00cdndia a principal respons\u00e1vel. Mais de seis d\u00e9cadas ap\u00f3s a anexa\u00e7\u00e3o, a \u00cdndia continua a querer \u201cindianizar\u201d Goa, n\u00e3o percebendo que seria do seu pr\u00f3prio interesse que Goa mantivesse a sua relativa singularidade, tal como a China j\u00e1 percebeu h\u00e1 muito no caso de Macau, ainda que por meras raz\u00f5es econ\u00f3micas.<\/p>\n<p>Assim, enquanto a China promove o ensino da l\u00edngua portuguesa e faz de Macau um canal de comunica\u00e7\u00e3o e com\u00e9rcio com o espa\u00e7o lus\u00f3fono, em Goa desincentiva-se o ensino da l\u00edngua portuguesa. Segundo os \u201cmedia\u201d locais, conforme pudemos testemunhar, s\u00f3 os \u201cvelhos\u201d (ou os \u201csaudosistas\u201d, para n\u00e3o dizer pior) insistem em aprender a nossa l\u00edngua. O que \u00e9 falso. Vimos dezenas de jovens em aulas de portugu\u00eas. Se n\u00e3o fosse este ambiente adverso, difundido pelas pr\u00f3prias autoridades indianas, essas dezenas seriam decerto centenas, sen\u00e3o milhares.<\/p>\n<p>O que torna a situa\u00e7\u00e3o mais absurda \u00e9 o facto de, neste caso, a \u00cdndia estar a lutar contra si pr\u00f3pria. Mais de seis d\u00e9cadas ap\u00f3s a anexa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m em Portugal que, seriamente, pretenda questionar o estatuto de Goa. Enquanto houver \u00cdndia, Goa far\u00e1 pois parte da \u00cdndia. Neste caso, a hist\u00f3ria \u00e9 absolutamente irrevers\u00edvel e \u00e9 mais do que tempo da \u00cdndia perceber isso. Sendo que os fantasmas indianos n\u00e3o t\u00eam a ver apenas com Portugal. \u00c9 ainda sobretudo o trauma da cis\u00e3o do Paquist\u00e3o que leva a \u00cdndia a querer \u201cindianizar\u201d o mais poss\u00edvel todo o territ\u00f3rio.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-6868 alignleft\" src=\"https:\/\/lusophonegoa.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/pic-praia-goa.jpeg\" alt=\"\" width=\"260\" height=\"195\" srcset=\"https:\/\/lusophonegoa.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/pic-praia-goa.jpeg 590w, https:\/\/lusophonegoa.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/pic-praia-goa-300x225.jpeg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 260px) 100vw, 260px\" \/><\/p>\n<p>As posi\u00e7\u00f5es p\u00fablicas do Primeiro-Ministro da Uni\u00e3o Indiana, Narendra Modi, s\u00e3o a esse respeito preocupantes. H\u00e1 um assumido prop\u00f3sito de fazer do hindu\u00edsmo a \u00fanica religi\u00e3o de refer\u00eancia do pa\u00eds, tornando assim \u201cestrangeiros\u201d os cat\u00f3licos e os mu\u00e7ulmanos. Mas se quanto \u00e0 ultra-minoria cat\u00f3lica (n\u00e3o chega a 2%) Narendra Modi sabe que nada deve temer, j\u00e1 quanto aos mu\u00e7ulmanos, que s\u00e3o cerca um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito diferente. Decerto, eles n\u00e3o ficar\u00e3o calados nem quietos. A \u00cdndia \u00e9 tamb\u00e9m o pa\u00eds deles. E eles \u2013 penso, em particular, num mu\u00e7ulmano go\u00eas, que fala razoavelmente bem a nossa l\u00edngua (e que at\u00e9 partilha connosco as mesmas cores club\u00edsticas) \u2013 t\u00eam decerto o direito a continuar a viver na \u00cdndia.<\/p>\n<p>Entretanto, h\u00e1 uma s\u00e9rie de comunidades em Goa que se sentem igualmente amea\u00e7adas. Falo, com conhecimento de causa, de uma s\u00e9rie de comunidades do interior de Goa que durante s\u00e9culos se dedicaram \u00e0 agricultura e \u00e0 pecu\u00e1ria, cuja autoridade sobre as suas terras foi reconhecida pelo Estado Portugu\u00eas (oficiosa e depois oficialmente atrav\u00e9s de um \u201cC\u00f3digo das Comunidades\u201d, datado de 1904 e reiteradamente confirmado em 1933 e em 1961), e que agora v\u00eaem essa autoridade questionada, pondo assim em causa um secular modo de vida. Quando regressar de novo a Goa, espero reencontr\u00e1-las mais esperan\u00e7adas no seu futuro, no nosso futuro comum.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-6869 alignleft\" src=\"https:\/\/lusophonegoa.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/pic-rice_field.jpg\" alt=\"\" width=\"260\" height=\"132\" srcset=\"https:\/\/lusophonegoa.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/pic-rice_field.jpg 1024w, https:\/\/lusophonegoa.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/pic-rice_field-300x153.jpg 300w, https:\/\/lusophonegoa.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/pic-rice_field-768x391.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 260px) 100vw, 260px\" \/><\/p>\n<p>Entretanto, esperemos igualmente que a \u00cdndia tenha em rela\u00e7\u00e3o a Goa a lucidez e a intelig\u00eancia que a China tem tido em rela\u00e7\u00e3o a Macau \u2013 a China tem apostado em Macau e na l\u00edngua portuguesa como uma ponte para todo o mundo, desde logo para o mundo lus\u00f3fono. Esperemos, de facto, que, entretanto, a \u00cdndia fa\u00e7a algo de similar. J\u00e1 \u00e9 mais do que tempo. Mais de seis d\u00e9cadas ap\u00f3s a anexa\u00e7\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o de Goa na Uni\u00e3o Indiana, ningu\u00e9m em Portugal, no s\u00e9culo XXI, ir\u00e1 reclamar aquele territ\u00f3rio. Apostem, pois, amigos indianos, sem quaisquer fantasmas (neo-)coloniais, na l\u00edngua portuguesa. N\u00e3o para agradar a Portugal. Apenas \u2013 raz\u00e3o suficiente \u2013 porque essa aposta vos ser\u00e1 ben\u00e9fica: quer para conhecerem mais o vosso passado, quer, sobretudo, para terem um melhor futuro neste mundo cada vez mais globalizado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-6865\" src=\"https:\/\/lusophonegoa.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Mil_Renato_foto_cropped-4x5-1-814x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"120\" height=\"151\" srcset=\"https:\/\/lusophonegoa.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Mil_Renato_foto_cropped-4x5-1-814x1024.jpg 814w, https:\/\/lusophonegoa.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Mil_Renato_foto_cropped-4x5-1-238x300.jpg 238w, https:\/\/lusophonegoa.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Mil_Renato_foto_cropped-4x5-1-768x966.jpg 768w, https:\/\/lusophonegoa.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Mil_Renato_foto_cropped-4x5-1-1221x1536.jpg 1221w, https:\/\/lusophonegoa.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Mil_Renato_foto_cropped-4x5-1-1628x2048.jpg 1628w, https:\/\/lusophonegoa.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Mil_Renato_foto_cropped-4x5-1-scaled.jpg 2035w\" sizes=\"auto, (max-width: 120px) 100vw, 120px\" \/><\/p>\n<p><strong>Renato Epif\u00e2nio<br \/>\n<\/strong>Renato Epif\u00e2nio \u00e9 Professor Universit\u00e1rio. Doutorou-se na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Preside ao MIL: Movimento Internacional Lus\u00f3fono desde a sua formaliza\u00e7\u00e3o jur\u00eddica (2010). \u00c9 membro do Instituto de Filosofia da Universidade do Porto, da Dire\u00e7\u00e3o do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, da Sociedade da L\u00edngua Portuguesa, e da Associa\u00e7\u00e3o Agostinho da Silva. Dirige a Nova \u00c1guia, Revista de Cultura para o S\u00e9culo XXI, e a Colec\u00e7\u00e3o de livros com o mesmo nome (Z\u00e9firo).<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>It was certainly a return to Goa, says Renato Epif\u00e2nio, president of MIL, the International Lusophone Movement, even if we had never been there \u2013 as we were, in 2018. 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