{"id":1577,"date":"2013-01-17T13:12:51","date_gmt":"2013-01-17T13:12:51","guid":{"rendered":"http:\/\/sh118.global.temp.domains\/~igsgorg\/lusophonegoa\/?p=1577"},"modified":"2013-02-10T17:28:35","modified_gmt":"2013-02-10T17:28:35","slug":"recognizing-publicly-the-historical-legacy-of-portugal-in-india-that-is-what-counts-luis-filipe-castro-mendes-former-ambassador-of-portugal-in-india-in-a-special-message-to-lsg-lusophone-socie","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lusophonegoa.org\/pt\/2013\/01\/recognizing-publicly-the-historical-legacy-of-portugal-in-india-that-is-what-counts-luis-filipe-castro-mendes-former-ambassador-of-portugal-in-india-in-a-special-message-to-lsg-lusophone-socie\/","title":{"rendered":"&#8220;Reconhecer publicamente o legado hist\u00f3rico de Portugal na \u00cdndia. \u00c9 isso que conta.&#8221; Lu\u00eds Filipe Castro Mendes antigo embaixador de Portugal na \u00cdndia em mensagem \u00e0  LSG &#8211; Lusophone Society of Goa"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/-leWgkiYOs_Y\/UKQR8FGATaI\/AAAAAAAAD0Y\/_xUSMaECg88\/s1600\/CASTRO%20MENDES.jpg\" alt=\"\" width=\"172\" height=\"222\" \/>A LSG &#8211; Lusophone Society of Goa solicitou ao Dr. Lu\u00eds Filipe Castro Mendes, embaixador de Portugal na \u00cdndia entre 2007 e 2010 e presentemente Embaixador Representante Permanente de Portugal junto do Conselho da Europa, em Estrasburgo, uma mensagem para o site da LSG que incluisse a sua experi\u00eancia na \u00cdndia e aquilo que lhe marcou pessoalmente na \u00cdndia.<br \/>\nCastro Mendes salienta na sua gentilmente enviada mensagem &#8220;Eu vi os pescadores de Goa escoltarem, com fl\u00e2mulas vermelhas e verdes nos seus barcos, o nosso navio-escola &#8220;Sagres&#8221;, que viera em visita oficial \u00e0 \u00cdndia, a convite da Marinha indiana. Fizeram-no, n\u00e3o para sonhar com o regresso das caravelas, mas para afirmar publicamente que n\u00e3o queriam negar o passado. Ideia que ali\u00e1s nunca ouvi a qualquer autoridade indiana em Nova Deli: bem pelo contr\u00e1rio, ouvi o Primeiro Ministro Manmohan Singh reconhecer publicamente o legado hist\u00f3rico de Portugal na \u00cdndia. E \u00e9 isso que conta.&#8221;<!--more--><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"center\"><strong><em>Mensagem<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Mensagem do Dr. Lu\u00eds Filipe Castro Mendes\u00a0<strong><em>\u00e0 LSG &#8211; Lusophone Society of Goa sobre a sua experi\u00eancia pessoal na \u00cdndia.<\/em><\/strong>\u00a0O\u00a0<strong><em>Dr. Lu\u00eds Filipe Castro Mendes foi Embaixador\u00a0<\/em><\/strong>\u00a0de Portugal na \u00cdndia entre 2007 e 2010 \u00a0e \u00e9 presentemente\u00a0 Embaixador Representante Permanente de Portugal junto do Conselho da Europa, em Estrasburgo.\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Enquanto portugu\u00eas a \u00cdndia marcou-me, n\u00e3o enquanto descoberta de mim atrav\u00e9s do outro (como me aconteceu no Brasil), mas como descoberta dessa &#8220;essencial heterogeneidade do ser&#8221; de que falava um poeta espanhol de que muito gosto (Ant\u00f3nio Machado) essa heterogeneidade que est\u00e1 t\u00e3o pr\u00f3xima, t\u00e3o intimamente pr\u00f3xima, da nossa pr\u00f3pria identidade.<\/p>\n<p>E agora penso que a quest\u00e3o deveria ser posta ao contr\u00e1rio: o que \u00e9 que n\u00e3o me marcou na \u00cdndia? \u00c9 dif\u00edcil falar da \u00cdndia, quando se cola a tudo o que dizemos o lastro de tantos discursos, tantos olhares, tantas interpreta\u00e7\u00f5es pelas quais tent\u00e1mos, tanto n\u00f3s ocidentais como v\u00f3s indianos (sim, porque tamb\u00e9m h\u00e1 &#8220;orientalistas&#8221; no Oriente), resumir a uma f\u00f3rmula, a uma interpreta\u00e7\u00e3o, a um tratado esse &#8220;m\u00faltiplo esplendor&#8221; (gosto de citar este lugar comum da Han Suyin) pelo qual a \u00cdndia se esconde e se revela num mesmo movimento aos nossos sentidos.<\/p>\n<p>Apetecia-me falar do cora\u00e7\u00e3o. Mas come\u00e7o pela cabe\u00e7a e, seguindo a li\u00e7\u00e3o de um cl\u00e1ssico portugu\u00eas, o Camilo, n\u00e3o esquecerei o est\u00f4mago. A raz\u00e3o de ser da \u00cdndia moderna \u00e9 evidentemente tomar o seu devido lugar no mundo com todo o peso da sua for\u00e7a, da sua capacidade, da sua riqueza e da sua intelig\u00eancia. Mas o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o esquece as mulheres violentadas nos autocarros de Deli, os dalits humilhados \u00e0s portas das cidades ou a ternura de um inesperado olhar vindo de dentro do bairro da mis\u00e9ria. E o est\u00f4mago: a fome combatida por esses milh\u00f5es de camponeses, sem rentabilidade para os c\u00e1lculos econ\u00f3micos modernos, mas sem alternativa \u00e0 vista para os est\u00f4magos vazios.<\/p>\n<p>A modernidade e a intelig\u00eancia mais sofisticada podem coincidir assim com a barb\u00e1rie? Mas isso n\u00e3o \u00e9 exclusivo da \u00cdndia, como por demais sabemos. Walter Benjamin dizia que &#8220;todo o monumento de civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 ao mesmo tempo um monumento de barb\u00e1rie&#8221;. Grutas de Ajanta ou Capela Sistina, os escravos e os humilhados passaram por l\u00e1\u00a0 e a sua sombra pesa na mem\u00f3ria dos vencidos. Invas\u00f5es mog\u00f3is ou ocupa\u00e7\u00f5es portuguesas, guerras inglesas, coloniza\u00e7\u00f5es, massacres ao fio da espada, o som e a f\u00faria da Hist\u00f3ria perduram na m\u00fasica obsessiva da mem\u00f3ria. Mas eu n\u00e3o fui \u00e0 \u00cdndia para participar na genuflex\u00e3o ritual dos colonizadores ante os colonizados. Ali\u00e1s poucos j\u00e1 se preocupam hoje na \u00cdndia com esse assunto. Quando a Europa se provincializa, certas erup\u00e7\u00f5es anti-coloniais t\u00eam o rid\u00edculo e o encanto de rendas velhas guardadas num cofre de c\u00e2nfora. Afinal quem s\u00e3o hoje os colonizados?<\/p>\n<p>Eu vi os pescadores de Goa escoltarem, com fl\u00e2mulas vermelhas e verdes nos seus barcos, o nosso navio-escola &#8220;Sagres&#8221;, que viera em visita oficial \u00e0 \u00cdndia, a convite da Marinha indiana. Fizeram-no, n\u00e3o para sonhar com o regresso das caravelas, mas para afirmar publicamente que n\u00e3o queriam negar o passado. Ideia que ali\u00e1s nunca ouvi a qualquer autoridade indiana em Nova Deli: bem pelo contr\u00e1rio, ouvi o Primeiro Ministro Manmohan Singh reconhecer publicamente o legado hist\u00f3rico de Portugal na \u00cdndia. E \u00e9 isso que conta.<\/p>\n<p>Contrariamente ao que alguns desejariam, os escravos n\u00e3o se tornaram senhores para os senhores se tornarem escravos. De certo modo compreendemos hoje que somos todos, ao mesmo tempo, senhores e escravos: senhores, sim, da experi\u00eancia extraordin\u00e1ria de globalmente nos conhecermos e de num mesmo instante nos tratarmos; escravos, sim, de um universal sistema de instant\u00e2neos efeitos, que atravessa espa\u00e7os e na\u00e7\u00f5es e apenas conhece rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a e diferenciais de riqueza. A cultura, poderemos dizer ent\u00e3o, \u00e9 o monumento que responde \u00e0 nossa barb\u00e1rie? Eu vi o sorriso elegante de Shiva na Ilha de Elefanta e o olhar apiedado de Nossa Senhora na Igreja Matriz de Pangim. De um olhar ao outro \u00e9 o mais comum dos humanos que enfrenta, com uma misteriosa ironia, os avatares da Hist\u00f3ria e o orgulho dos homens.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Filipe Castro Mendes<\/p>\n<p>Estrasburgo, 14 de Janeiro de 2013<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<\/p>\n<p><strong><em>&#8220;Lendas da \u00cdndia&#8221; o \u00faltimo livro de Lu\u00eds Filipe Castro Mendes<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>Lu\u00eds Filipe Castro Mendes nasceu em 1950 e, ainda muito cedo, entre 1965 e 1967, foi colaborador do jornal Di\u00e1rio de Lisboa-Juvenil. Em 1974, licenciou-se em Direito pela Universidade de Lisboa e desenvolveu, a partir de 1975, uma carreira diplom\u00e1tica.<\/em><\/p>\n<p><em>Chefia a miss\u00e3o portuguesa junto da UNESCO, em Paris, depois de ter sido embaixador em Budapeste e Nova Delhi.<\/em><\/p>\n<p><em>O embaixador Lu\u00eds Filipe Castro Mendes tem uma ampla obra po\u00e9tica publicada e premiada, tendo-se estreado literariamente em 1983, com o livro de poesia \u201cRecados\u201d. No ano seguinte publicou a obra de fic\u00e7\u00e3o \u201cAreias Escuras\u201d, \u00e0 qual sucedeu \u201cSeis Elegias e Outros Poemas\u201d, galardoado com o Pr\u00e9mio da Associa\u00e7\u00e3o de Jornalistas e Homens de Letras do Porto.\u00a0<\/em><em>Publicou ainda \u201cIlha dos Mortos\u201d (1991), \u201cViagem de Inverno\u201d (1993), \u201cO Jogo de Fazer Versos\u201d (1994), \u201cModos de M\u00fasica\u201d (1996), \u201cOutras Can\u00e7\u00f5es\u201d (1998), \u201cPoesia Reunida (1985-1999)\u201d e \u201cOs Dias Inventados\u201d (2001).<\/em><\/p>\n<p><em>Interrompendo um longo hiato de uma d\u00e9cada Lu\u00eds Filipe Castro Mendes volta \u00e0 poesia com &#8220;Lendas da \u00cdndia&#8221; publicado em 2011 e distinguido com o Pr\u00e9mio Ant\u00f3nio Quadros.<\/em>\u00a0<em>Segundo texto publicado no n.\u00ba 106 da revista Ler, das 14 partes em que o livro Lendas da \u00cdndia se divide, oito evocam a passagem do diplomata pela \u00cdndia. Mas esta n\u00e3o \u00e9 a \u00cdndia do exotismo, aquela que se abre aos olhos estrangeiros como uma flor misteriosa ou um segredo m\u00edstico. O Oriente de Castro Mendes traz consigo a dist\u00e2ncia e a perplexidade do ocidental para quem \u00abtudo nos \u00e9 t\u00e3o estranho aqui\u00bb. Do anoitecer no Ganges, com os ghats preparando as piras funer\u00e1rias, \u00e0s chuvas das mon\u00e7\u00f5es, aos ventos abrasadores do deserto e \u00e0 \u00abcontempla\u00e7\u00e3o do lixo\u00bb (s\u00edmbolo de uma \u00abdividida modernidade\u00bb), das est\u00e1tuas sorridentes nos templos de Angkor (Camboja) ao \u00abincenso e bosta de vaca\u00bb junto \u00e0s imagens de \u00abdeuses toscos\u00bb numa rua de Nova Deli, a poesia est\u00e1 \u00abna aspereza das coisas contra n\u00f3s\u00bb. O poema acaba por ser o \u00absaldo do dia\u00bb, resgate de \u00abtudo o mais que n\u00e3o fica na mem\u00f3ria\u00bb, e tamb\u00e9m um \u00abacontecimento\u00bb, o reverso da afasia, a inst\u00e2ncia onde as coisas se dizem, \u00e0 procura do que um dia se perdeu.<\/em><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A LSG &#8211; Lusophone Society of Goa solicitou ao Dr. Lu\u00eds Filipe Castro Mendes, embaixador de Portugal na \u00cdndia entre 2007 e 2010 e presentemente Embaixador Representante Permanente de Portugal junto do Conselho da Europa, em Estrasburgo, uma mensagem para &hellip; <a href=\"https:\/\/lusophonegoa.org\/pt\/2013\/01\/recognizing-publicly-the-historical-legacy-of-portugal-in-india-that-is-what-counts-luis-filipe-castro-mendes-former-ambassador-of-portugal-in-india-in-a-special-message-to-lsg-lusophone-socie\/\">Continue reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[22],"tags":[],"class_list":["post-1577","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-culture"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lusophonegoa.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1577","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lusophonegoa.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lusophonegoa.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lusophonegoa.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lusophonegoa.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1577"}],"version-history":[{"count":99,"href":"https:\/\/lusophonegoa.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1577\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1820,"href":"https:\/\/lusophonegoa.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1577\/revisions\/1820"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lusophonegoa.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1577"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lusophonegoa.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1577"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lusophonegoa.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1577"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}