{"id":956,"date":"2012-10-20T21:29:03","date_gmt":"2012-10-20T21:29:03","guid":{"rendered":"http:\/\/sh118.global.temp.domains\/~igsgorg\/lusophonegoa\/?p=956"},"modified":"2012-10-25T16:16:21","modified_gmt":"2012-10-25T16:16:21","slug":"professor-nelson-goncalves-gomes-at-rachol-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lusophonegoa.org\/pt\/2012\/10\/professor-nelson-goncalves-gomes-at-rachol-2\/","title":{"rendered":"&#8220;Em Goa eu senti-me em casa&#8230;&#8221;  Prof. Nelson Gomes em entrevista"},"content":{"rendered":"<p><div id=\"attachment_1063\" style=\"width: 570px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1063\" class=\" wp-image-1063 \" title=\"Nelson_002-800\" src=\"https:\/\/lusophonegoa.org\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Nelson_002-8005.jpg\" alt=\"\" width=\"560\" height=\"420\" srcset=\"https:\/\/lusophonegoa.org\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Nelson_002-8005.jpg 800w, https:\/\/lusophonegoa.org\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Nelson_002-8005-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 560px) 100vw, 560px\" \/><p id=\"caption-attachment-1063\" class=\"wp-caption-text\">Prof. Nelson Gomes numa curta aula sobre a l\u00f3gica que deu no Semin\u00e1rio de Rachol, Goa, em Fevereiro de 2012<\/p><\/div><\/p>\n<p><em><strong>O Prof. Nelson Gon\u00e7alves Gomes*, da Universidade de Bras\u00edlia (Brasil) esteve em Fevereiro deste ano de visita a Goa. Numa entrevista que concedeu \u00e0 LSG descreve as suas impress\u00f5es sobre Goa, relata sobre a sua visita ao Semin\u00e1rio de Rachol e refere possibilidades concretas para incentivar o interc\u00e2mbio entre Brasil e Goa. Aborda tamb\u00e9m a globaliza\u00e7\u00e3o e claro n\u00e3o esquece a boa comida goesa.<\/strong><\/em><!--more--><\/p>\n<p><strong>LSG &#8211; O Prof. Nelson visitou pela primeira vez\u00a0Goa\u00a0em Fevereiro deste ano. Qual foi a sua impress\u00e3o de Goa no contexto da lusofonia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Prof. Nelson Gomes<\/strong> &#8211; Qualquer brasileiro deixa-se enlevar pelo facto de ouvir falar portugu\u00eas em pleno sul da \u00c1sia. A l\u00edngua estabelece um la\u00e7o imediato entre goeses, portugueses e brasileiros, la\u00e7o esse que se estende a m\u00faltiplos aspectos da cultura local. Em Goa eu senti-me em casa, porque l\u00e1 estava a minha l\u00edngua. Mesmo que n\u00e3o seja a fala de todos, o portugu\u00eas de Goa \u00e9 de excelente qualidade, claro e correto. Lembrei-me da c\u00e9lebre frase de Fernando Pessoa: &#8220;Minha p\u00e1tria \u00e9 a l\u00edngua portuguesa&#8221;. A dist\u00e2ncia f\u00edsica entre povos torna-se irrelevante quando a l\u00edngua lhes \u00e9 comum&#8230;<\/p>\n<p><strong>LSG &#8211; &#8230;de facto, para os brasileiros e parte dos goeses a l\u00edngua \u00e9 comum, mas presentemente os brasileiros em geral t\u00eam uma no\u00e7\u00e3o, nem que seja vaga, onde fica Goa?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Prof. Nelson Gomes<\/strong> &#8211; Brasileiros instru\u00eddos, seguramente, sabem algo sobre Goa, ainda que n\u00e3o seja muito. No mundo acad\u00eamico mais sofisticado, as pessoas conhecem fatos fundamentais sobre a realidade goesa. Quando eu retornei de viagem, ouvi perguntas de colegas, amigos e alunos a respeito da l\u00edngua portuguesa em Goa e sobre outros aspectos da vida local, o que denota algum conhecimento e certo interesse. Al\u00e9m disso, eu conhe\u00e7o v\u00e1rios brasileiros que j\u00e1 estiveram em Goa. Honestamente falando, por\u00e9m, o grande p\u00fablico do Brasil tem pouca ou nenhuma informa\u00e7\u00e3o sobre o assunto. O sistema educacional brasileiro \u00e9 deficiente.<\/p>\n<p><strong>LSG &#8211; Durante a sua estadia em Goa teve oportunidade de visitar o Semin\u00e1rio de Rachol, visitando a sua c\u00e9lebre biblioteca e dando uma curta aula de L\u00f3gica aos seminaristas. O que \u00e9 que lhe impressionou mais nessa sua visita a Rachol?<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_1276\" style=\"width: 496px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1276\" class=\" wp-image-1276 \" title=\"Palestras\" src=\"https:\/\/lusophonegoa.org\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Nelson-sem-fonte.jpg\" alt=\"\" width=\"486\" height=\"317\" srcset=\"https:\/\/lusophonegoa.org\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Nelson-sem-fonte.jpg 486w, https:\/\/lusophonegoa.org\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Nelson-sem-fonte-300x195.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 486px) 100vw, 486px\" \/><p id=\"caption-attachment-1276\" class=\"wp-caption-text\">Prof. Nelson Gon\u00e7alves Gomes da Universidade de Bras\u00edlia, Brasil<\/p><\/div>\n<p><strong>Prof. Nelson Gomes<\/strong> &#8211; Em termos pessoais, apreciei muito a hospitalidade do Padre Ferr\u00e3o e a agrad\u00e1vel conversa com ele. A aula foi uma experi\u00eancia \u00fanica de contacto com jovens seminaristas t\u00e3o simp\u00e1ticos e interessados. Em termos hist\u00f3ricos, Rachol \u00e9 um monumento de valor inestim\u00e1vel, uma joia do s\u00e9culo XVII. \u00c9 tudo muito impressionante: a entrada com as armas de Dom Sebasti\u00e3o, a linda igreja cheia de pormenores art\u00edsticos e arquitet\u00f3nicos e a biblioteca, que, seguramente, guarda um acervo precioso. Deixei aquela casa a pensar em formas de colabora\u00e7\u00e3o internacional efetiva, de maneira a buscar meios de beneficiar essa institui\u00e7\u00e3o que vem cumprindo um papel t\u00e3o importante na hist\u00f3ria de Goa.<\/p>\n<p><strong>LSG &#8211; A coopera\u00e7\u00e3o sul-sul no \u00e2mbito da lusofonia deveria estreitar ainda mais os la\u00e7os entre o Brasil e a \u00cdndia. Do ponto de vista de um brasileiro, e j\u00e1 que conhece Goa, quais os aspectos n\u00e3o comerciais que enfocaria no aprofundamento de uma colabora\u00e7\u00e3o entre Brasil e Goa?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Prof. Nelson Gomes<\/strong> &#8211; De imediato, eu citaria duas possibilidades. Na medida em que estou bem informado, o Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores do Brasil tem um servi\u00e7o de apoio \u00e0 lusofonia. Seguramente, haveria interesse em incentivar qualquer colabora\u00e7\u00e3o cultural relativa \u00e0 presen\u00e7a da l\u00edngua portuguesa em Goa, mesmo porque Brasil e \u00cdndia t\u00eam la\u00e7os estreitos de coopera\u00e7\u00e3o em diversos \u00e2mbitos, membros que s\u00e3o dos BRIC. Ao lado do concani e do ingl\u00eas, o portugu\u00eas \u00e9 um dos idiomas de Goa, o que o torna uma das riquezas da \u00cdndia. Em segundo lugar, menciono o trabalho de historiadores a prop\u00f3sito do nosso passado comum, trabalho esse que nem sequer come\u00e7ou, ao menos em propor\u00e7\u00f5es significativas. Essas duas possibilidades n\u00e3o s\u00e3o as \u00fanicas. Elas merecem ser exploradas, mas h\u00e1 outras dispon\u00edveis.<\/p>\n<p><strong>LSG &#8211; Quando se observa o atual movimento de &#8220;globaliza\u00e7\u00e3o&#8221; com os seus processos de integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, social, cultural e mesmo pol\u00edtica a n\u00edvel mundial, n\u00e3o acha que foram os portugueses os verdadeiros precursores da ideia de &#8220;globaliza\u00e7\u00e3o&#8221; j\u00e1 a partir do s\u00e9culo 15?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Prof. Nelson Gomes<\/strong> &#8211; Os portugueses foram precursores da globaliza\u00e7\u00e3o em tr\u00eas sentidos importantes. Primeiramente, em virtude da sua tecnologia naval, eles descobriram novos caminhos mar\u00edtimos e chegaram a outros povos e culturas, alguns dentre os quais eram desconhecidos at\u00e9 ent\u00e3o. Nas terras rec\u00e9m-descobertas, eles logo definiram e dominaram rotas cruciais por onde circulavam as riquezas. Em segundo lugar, gra\u00e7as ao seu \u00edmpeto mission\u00e1rio, os portugueses estabeleceram contactos culturais que iam muito al\u00e9m das rela\u00e7\u00f5es de com\u00e9rcio. Em Goa, por exemplo, parte da popula\u00e7\u00e3o goesa adaptou-se ao catolicismo, mas este tamb\u00e9m se acomodou \u00e0 realidade da Costa Malabar, como se v\u00ea claramente na decora\u00e7\u00e3o da igreja de Rachol e na Bas\u00edlica de Bom Jesus, com os seus anjos de fei\u00e7\u00f5es morenas e com as suas representa\u00e7\u00f5es de cajus. Por fim, as descobertas portuguesas encorajaram a aceita\u00e7\u00e3o do risco inerente \u00e0s aplica\u00e7\u00f5es de capitais. Na primeira metade do s\u00e9culo XVI, cada escudo investido nos neg\u00f3cios com a \u00cdndia rendia at\u00e9 cinquenta escudos de retorno. Hoje em dia, n\u00f3s vemos a globaliza\u00e7\u00e3o nesses termos: tecnologia, viagens, integra\u00e7\u00e3o cultural e neg\u00f3cios. Ora, tudo isso j\u00e1 estava presente nas grandes navega\u00e7\u00f5es lusitanas, especialmente no caso de Goa. Com respeito a esse processo, cabe lembrar o papel dos jesu\u00edtas, uma ordem religiosa internacional por excel\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>LSG &#8211; Entrando pelas coisas mais mundanas: gostou da comida de Goa? H\u00e1 qualquer rela\u00e7\u00e3o com a comida ou ingredientes da culin\u00e1ria brasileira?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Prof. Nelson Gomes<\/strong> &#8211; Como globalizadores que foram, os portugueses promoveram interc\u00e2mbios de iguarias. O sarapatel, se n\u00e3o estou errado, \u00e9 go\u00eas na sua origem, mas foi levado ao Brasil, onde se integrou \u00e0 cozinha da Bahia. Ouvi dizer que o piri-piri \u00e9 africano, tendo sido introduzido em Goa pelos portugueses. Pessoalmente, nos meus tempos de estudante em Munique, eu conheci a cozinha goesa gra\u00e7as a amigos, que me prepararam um inesquec\u00edvel caril. A partir da\u00ed, eu sempre quis saber e provar mais das del\u00edcias gastron\u00f4micas goesas. Os dias que passei em Goa foram uma festa para o paladar. O uso intensivo da pimenta e do coco s\u00e3o os aspectos dessa arte que mais me agradam. Os antepastos e as sobremesas s\u00e3o excelentes. Tudo \u00e9 perfumado e colorido. A cozinha goesa tem personalidade pr\u00f3pria, o que a torna diferente de outras tradi\u00e7\u00f5es culin\u00e1rias do subcontinente indiano.<\/p>\n<p><em>*O Prof. Dr. Nelson Gon\u00e7alves Gomes, docente de Filosofia (especialmente de L\u00f3gica) na Universidade de Bras\u00edlia (Brasil) desde 1976, fez curso de gradua\u00e7\u00e3o de Filosofia na Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo e de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Filosofia (especializa\u00e7\u00e3o em L\u00f3gica) na Universidade de S\u00e3o Paulo. \u00c9 doutor em Filosofia pela Ludwig-Maximilians-Universit\u00e4t M\u00fcnchen (Munique \/ Alemanha). Desde 1993, \u00e9 professor titular junto ao Departamento de Filosofia da Universidade de Bras\u00edlia.Fez p\u00f3s-doutorado e est\u00e1gios de p\u00f3s-doutoramento nas universidades de Munique (Alemanha), Oxford (Inglaterra) Salzburg (\u00c1ustria), Hebraica de Jerusal\u00e9m (Israel) e na London School of Economics (Inglaterra). Foi docente de Hist\u00f3ria da Filosofia no Departamento de Psicologia da Universidade de S\u00e3o Paulo, campus de Ribeir\u00e3o Preto (SP).Foi um dos fundadores do departamento de Filosofia da Universidade de Bras\u00edlia. Foi tamb\u00e9m membro do Comit\u00ea Assessor de Filosofia do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico do Brasil. As suas \u00e1reas de trabalho s\u00e3o L\u00f3gica, Filosofia Anal\u00edtica e Meta\u00e9tica. Tem publica\u00e7\u00f5es nas suas \u00e1reas de trabalho.<\/em><\/p>\n<p><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Prof. Nelson Gon\u00e7alves Gomes*, da Universidade de Bras\u00edlia (Brasil) esteve em Fevereiro deste ano de visita a Goa. 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