
Milton Santos
No dia 3 de maio, foi comemorado o centenário de nascimento do geógrafo brasileiro Milton Santos, um dos principais nomes da geografia mundial e da globalização solidária, que nasceu no estado da Bahia (Brasil) e faleceu em 2001.
Milton Santos doutorou-se na Universidade de Estrasburgo (França) e especializou-se particularmente na área socioeconómica, onde defendeu a ideia de uma globalização baseada na solidariedade e fundamentada em valores diferentes dos do mundo hegemónico.
Milton Santos complementou assim a Teoria do Heartland do famoso geógrafo britânico Halford Mackinder que, há mais de um século, desenvolveu uma das teorias geopolíticas mais influentes da história, na qual propunha que o controlo da Eurásia — o “coração” do poder mundial — era a chave para a dominação global. Milton defendeu, porém, a ideia de uma globalização baseada na solidariedade e fundamentada em valores diferentes dos do mundo hegemónico. Nos seus aspetos económicos, ele analisou o papel das empresas na internacionalização do capital, os fluxos financeiros e as suas implicações para a cultura local. Teorizou e criticou aspetos do mundo contemporâneo. Suas ideias continuam sendo referência para análises socioeconómicas do mundo e, particularmente, do Sul global.
Milton viveu e trabalhou em diversos países, como Estados Unidos e Canadá, foi professor na Universidade de São Paulo (Brasil) e recebeu vários prémios, entre os quais, em 1994, em Paris, o renomado Prémio Internacional para a Geografia Vautrin Lud.
Por razões políticas, teve que se exilar, e foi no exílio que publicou as suas obras mais importantes e começou a defender uma geografia comprometida com a compreensão das desigualdades estruturais e da transformação social.
O Espaço Dividido
O seu livro O Espaço Dividido: os dois circuitos da economia urbana em países subdesenvolvidos, publicado originalmente em francês, em 1975, sob o título L’espace partagé, e cuja primeira edição em português foi lançada no Brasil em 1979, é considerado hoje um clássico da Geografia.
Milton Santos desenvolve nesse livro uma teoria sobre a composição de dois circuitos na economia urbana: um circuito superior, ou moderno, intensivo em capital e de alta tecnologia; e um circuito inferior, não moderno, ou arcaico, constituído por serviços tradicionais, intensivos em trabalho e de baixa tecnologia.
As relações de superexploração do trabalho e o padrão contemporâneo de acumulação capitalista resultam da combinação desses dois circuitos, escreve Milton. As cidades são assim sistemas que incluem o circuito superior, das relações político-económicas globalizadas, e o circuito inferior, uma economia produzida a partir das necessidades do lugar. Centrado no estudo da realidade urbana dos países subdesenvolvidos, este trabalho foi o que mais repercussão obteve na geografia de língua inglesa e foi considerado um marco histórico na interpretação da urbanização dos países em vias de desenvolvimento, refletindo as preocupações de uma fase mais madura do pensamento miltoniano, na qual a globalização se torna um tema central, deslocando a escala de estudo da formação social nacional para os vínculos entre os processos globais e os lugares.

Milton Santos
A postura fortemente crítica de Milton Santos sempre foi acompanhada de um otimismo que o levou a prever possibilidades de transformação. Em sua visão, enquanto os totalitarismos se tornavam predominantes, as cidades se reafirmavam como um espaço de liberdade para a cultura popular.
Características humanas positivas
Não foi só como cientista que Milton Santos se tornou famoso mundialmente, e especialmente no Sul global. As características humanas positivas — chamadas de qualidades, virtudes ou forças de carácter — foram fortes traços da personalidade de Milton.
O professor Marcos Formiga, um dos dirigentes do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Brasil), que em 1978 organizou um seminário internacional sobre pobreza urbana com a presença de consagrados nomes de experts de vários continentes — entre eles Milton — e que conviveu com ele, salienta, em entrevista à nossa Sociedade Lusófona de Goa: “Do Milton foi exigida muita coragem para se afirmar em ambientes preconceituosos, ora de racismo velado, ora explícito.” E continua: “Seu carácter aguerrido jamais o deixou desistir. Com determinação férrea, foi sempre em frente, sem jamais olhar para trás.” E conclui afirmando: “No dia a dia, Milton era uma pessoa afável, de fácil relacionamento social, bem-humorado, capaz de rir de si próprio. Sem falar do seu sorriso permanente como marca registada. Por certo, seguro do seu carisma, chegava sempre com seu sorriso amplo, como complemento da sua estrutura de homem forte e de personalidade.”

