
O Campeonato Mundial de Futebol, com três seleções de países de língua oficial portuguesa: Brasil, Portugal e Cabo Verde será o mais lusófono de sempre. O fato mais relevante é que o Cabo Verde participa pela primeira vez na história num Campeonato de Mundo. Com cerca de 500.000 habitantes Cabo Verde é o país mais pequeno em área que disputa uma fase final e o segundo menos populoso, atrás da Islândia.
O Brasil integra o Grupo C, com Marrocos, Haiti e Escócia; Portugal, liderado por Cristiano Ronaldo, está no grupo K com a República Democrática do Congo, Uzbequistão e Colômbia e, finalmente, Cabo Verde integra o Grupo H com Espanha, Arábia Saudita e Uruguai. Brasil, pentacampeão Mundial, nunca falhou uma fase final e a seleção de Cabo Verde inclui vários jogadores que jogam na Liga portuguesa.
O Mundial que se realiza entre 11 de junho e 19 de julho de 2026 e tem a final marcada para o MetLife Stadium, em Nova Jérsia nos Estados Unidos, terá a participação de 48 seleções com jogos a decorrerem em três países, no México, Estados Unidos e no Canadá.
Cabo Verde com 500 mil habitantes e uma forte identidade
“Dez ilhas. Uma Nação. Um Sonho.“ é o slogan da seleção nacional de Cabo Verde. Em área territorial, é o menor país de sempre a participar no Mundial e o segundo menor país em termos populacionais a disputar um Mundial, depois da Islândia.
Cabo Verde, atualmente classificado em 69.º lugar no ranking Mundial, foi uma província ultramarina do Império Português, estabelecida no ano de 1462, aproximadamente na mesma altura como Goa (1510), até a independência a 5 de julho de 1975 (Goa foi depois da incursão militar indiana em 1961 integrada na União Indiana). Bubista, o treinador da seleção cabo-verdiana, em entrevista ao jornal espanhol “Marca” diz “O nosso povo está tão entusiasmado e tão feliz. O nosso povo está espalhado pelo mundo”. Estima-se que existam mais cabo-verdianos espalhados pelo mundo do que vivendo no próprio país. Essa imensa comunidade espalhada por Portugal, Holanda, França, Estados Unidos e tantos outros países é a nação que vive longe da terra natal, mas nunca se desconecta dela. E é aqui que a história encontra o futebol, já que boa parte da seleção que vai ao Mundial é formada por filhos da diáspora, jogadores nascidos fora de Cabo Verde, criados em outros países, mas que escolheram defender a terra dos pais.
O português, a língua oficial de Cabo Verde, é a que aparece nos documentos, nas leis, nos jornais. Mas na vida real, nas ruas, nas casas, nas conversas entre amigos, o que se ouve é o crioulo cabo-verdiano, a língua materna, o idioma do coração. Nas escolas, as aulas são ministradas em português, porém no intervalo só se fala em crioulo, que é uma língua de base lexical portuguesa, mas fortemente influenciada por línguas africanas da costa ocidental, sendo o símbolo máximo da identidade cultural e resistência de Cabo Verde.
Existem duas palavras em crioulo que não têm tradução e que explicam a essência do povo cabo-verdiano. A primeira é sodade. Não é a “saudade” conhecida em português, é algo mais profundo e que traduz a dor de quem parte, a esperança de quem espera voltar, o amor à distância de um povo marcado pela emigração. A segunda é morabeza, é o oposto da despedida. É o acolhimento, a gentileza, a hospitalidade genuína de quem transforma um estranho em vizinho em questão de minutos. Se a sodade é o que o cabo-verdiano sente quando precisa partir, a morabeza é como ele recebe quem chega.
Vídeos de torcedores em Cabo Verde comemorando a classificação para o Campeonato Mundial de 2026 viralizaram nas redes sociais, com milhares celebrando o marco histórico dos “Tubarões Azuis” – como é conhecida a seleção. Mas acompanhar os jogos nos estádios será um desafio para muitos adeptos de Cabo Verde. Entre bilhetes, viagens e estadias, assistir presencialmente a um único jogo pode custar mais de cinco mil dólares.
Sabia que a bola do Mundial é fabricada no Paquistão?
A bola oficial do campeonato, a Adidas Trionda, que remete para as três nações anfitriãs, é fabricada em Sialkot, uma cidade do Paquistão, que produz mais de dois terços das bolas de futebol produzidas no Mundo. Trata-se da empresa Forward Sports, fornecedora oficial das bolas para o Mundial em nome da Adidas.
Essa bola incorpora a tecnologia de sensores de movimento para apoiar o sistema de video-árbitro (VAR) durante os jogos.
A iconografia da bola Adidas Trionda inclui, segundo um dos três países onde se disputa o Mundial, uma folha vermelha pelo Canadá, uma estrela azul pelos Estados Unidos e uma Águia Verde pelo México.
E já que estamos no Paquistão vamos dar um pulinho para a Índia e ver o que se passa na vizinha Índia.
A Índia qualificou-se para o Mundial de 1950 da FIFA no Brasil e optou por não competir.
A maior parte do mundo ainda se estava a recuperar das devastadoras consequências económicas deixadas pela segunda Guerra Mundial, e viajar internacionalmente continuava a ser caro e complicado.
Várias nações de diferentes continentes retiraram-se durante a fase de qualificação para o Mundial de 1950 ou recusaram participar por completo devido a dificuldades financeiras e preocupações logísticas associadas a viajar para a América do Sul na altura.
Com o tempo, surgiram vários mitos em torno do motivo da ausência da Índia no Mundial de 1950. Uma das versões mais populares diz que a Índia desistiu porque a FIFA recusou permitir que os jogadores jogassem de pés descalços. Mas para a Índia, que tinha apenas três anos de Independência (alcançada em 1947), financiar e organizar uma viagem até à outra parte do mundo para um torneio de futebol era uma perspetiva esmagadora para a jovem All India Football Federation (AIFF), que ainda lidava com as realidades de um país recém-independente.
Mesmo sem nunca ter participado num Mundial e num modestíssimo 136.º lugar no ranking atual, a FIFA sente que não se pode dar ao luxo de perder a Índia. A seleção nacional indiana pode sonhar um dia com o apuramento, mas para isso é preciso que as autoridades e a população, sobretudo a jovem, se envolvam com o desporto num país muito ligado sobretudo ao cricket e ao hóquei em campo.
E pulando um pouco mais para o norte, para a China, que é vizinha da Índia
A China não se conseguiu classificar para o Mundial de Futebol desde a sua primeira participação no torneio, em 2002, quando foi eliminada ainda na fase de grupos sem somar nenhum ponto.
Nas últimas duas décadas, o futebol chinês enfrentou crises financeiras e sucessivos escândalos de corrupção, que levaram jogadores, árbitros e dirigentes de clubes a serem punidos e proibidos de atuar no desporto por tempo indefinido.
Com a seleção da China novamente fora da Copa do Mundo de futebol, os torcedores chineses encontraram um árbitro como o principal representante do país no torneio, o Sr. Ma Ning de 46 anos, que agora inspirou memes virais e ganhou até patrocínio de grandes marcas da China, como as fabricantes de computadores e de eletrónica Hisense e Lenovo.
Conhecido pelo estilo durão, Ma Ning ganhou o apelido de “mestre dos cartões”. Numa partida em Xangai, em 2015, mostrou nada menos que nove cartões amarelos e três vermelhos – um recorde em sua carreira.
Esta é a segunda participação de Ma Ning num Mundial. Há quatro anos, atuou como quarto árbitro, assessorando o juiz principal.

Indisciplina neste Mundial?
Com três expulsões, o encontro inaugural deste Mundial entre o México e a África do Sul passa a integrar a lista dos jogos mais indisciplinados da história dos Mundiais. À sua frente surge apenas a histórica «Batalha de Nuremberga», duelo dos oitavos de final do Mundial 2006 entre Portugal e os Países Baixos, que ficou marcado por quatro cartões vermelhos.
No jogo inaugural do Mundial de 2026 houve quase tantos cartões vermelhos como em todo o Mundial de 2022. O México-África do Sul (2-0), foi ‘rico’ em emoções e …. em expulsões, com três cartões vermelhos mostrados pelo árbitro brasileiro Wilton Pereira Sampaio.
E o que são as principais novas regras no Mundial de 2026?
O Mundial 2026 arranca com várias alterações às leis de jogo aprovadas pela FIFA. Estas abrangem áreas como a arbitragem, o recurso ao VAR, as substituições, a assistência médica e o combate às perdas de tempo.
Introduzidas pela FIFA neste Mundial, as pausas de hidratação são uma novidade obrigatória para todos os 104 jogos do torneio, com a duração de três minutos a meio de cada parte, independentemente do clima, da temperatura ou mesmo em estádios com cobertura e ar condicionado.
Outra novidade é a possibilidade de expulsão de jogadores que tapem a boca durante discussões ou confrontos em campo. Segundo a FIFA, a medida aplica-se apenas em situações de conflito entre jogadores e pretende aumentar a transparência das comunicações dentro das quatro linhas.
Outra das alterações prevê a expulsão de jogadores, treinadores ou outros elementos que abandonem deliberadamente o relvado em protesto contra decisões da equipa de arbitragem ou incentivem outros a fazê-lo.
A FIFA introduziu também novas medidas para reduzir atrasos no jogo. Nos lançamentos laterais, os jogadores passam a ter apenas cinco segundos para colocar a bola em jogo após indicação do árbitro. Se ultrapassarem esse limite, o lançamento será atribuído à equipa adversária.
Nos pontapés de baliza aplica-se uma lógica semelhante. Caso o reinício do jogo demore mais do que o permitido, a equipa adversária será beneficiada com um pontapé de canto.
As substituições também sofrem alterações. Depois de ser exibida a placa pelo quarto árbitro, o jogador substituído terá dez segundos para abandonar o terreno de jogo pelo ponto mais próximo. Se não cumprir esse prazo, o substituto terá de aguardar para entrar e a equipa ficará temporariamente reduzida a dez jogadores.
Também existem novas regras para os jogadores que necessitem de assistência médica durante a partida. O atleta terá de permanecer fora do terreno de jogo durante um minuto antes de poder regressar.
No entanto, a FIFA prevê exceções para casos como lesões graves, situações que envolvem guarda-redes ou faltas que resultam em sanções disciplinares para o adversário.
O vídeo árbitro passa a ter competências alargadas já neste Mundial 2026. Entre as novidades está a possibilidade de corrigir situações em que um jogador receba indevidamente um segundo cartão amarelo que resulte em expulsão.
O VAR poderá também intervir quando um cartão amarelo ou vermelho for mostrado ao jogador errado. Além disso, passa a ser possível rever algumas decisões relacionadas com pontapés de canto, desde que a correção possa ser efetuada rapidamente e sem atrasar o reinício do jogo.
Uma nota interessante: quase 300 jogadores vão defender um país onde não nasceram
O Mundial 2026 arranca com um dado que mostra bem como o futebol internacional se tornou cada vez mais global. Entre os jogadores convocados para a competição, 289 irão representar uma seleção diferente do país onde nasceram. Das 48 equipas presentes na prova, apenas oito são compostas exclusivamente por atletas nascidos no respetivo território: Brasil, África do Sul, Chéquia, Colômbia, Suécia, Arábia Saudita, Áustria e Panamá.
O caso mais surpreendente pertence a Curaçau. A seleção caribenha leva ao Mundial uma convocatória de 26 jogadores, dos quais 25 nasceram nos Países Baixos. Trata-se do exemplo mais extremo de uma tendência cada vez mais comum no futebol internacional.
Apesar de terem nascido noutro país, todos estes jogadores cumprem os critérios de elegibilidade definidos pela FIFA. As regras permitem representar uma seleção através da nacionalidade, das origens familiares ou, em alguns casos, após um período de residência no país em causa.
E finalmente um pouco de música
O que seria de um Mundial de Futebol sem as famosas músicas que, mesmo anos depois, continuam a ecoar na memória dos adeptos e a transportar-nos de volta às emoções vividas dentro e fora dos estádios?
A banda sonora do Mundial de Futebol 2026 estende-se de Shakira a Anitta e dos Rolling Stones a Sam The Kid.
À semelhança do que aconteceu em 2022, a FIFA voltou a apostar num único álbum para servir de banda sonora ao Mundial 2026. O “FIFA World Cup 2026 Official Album” reúne 18 temas e junta algumas das maiores estrelas da música atual a nomes já consagrados da indústria, incluindo artistas que deram voz a competições de futebol anteriores.
Esta mudança rompe com a tradição que se manteve até 2018, em que cada Mundial era representado apenas por uma única canção oficial, como aconteceu com “Waka Waka (This Time for Africa)” (2010), de Shakira, ou “We Are One (Ole Ola)” (2014), interpretada por Pitbull, Claudia Leitte e Jennifer Lopez.
A edição de 2026 marca também uma mudança profunda no formato. O alargamento de 32 para 48 seleções abre espaço a mais países, mais jogos e mais histórias, mas também aumenta a exigência logística. Durante mais de um mês, o Mundial atravessará 16 cidades da América do Norte, com deslocações, fusos horários e ambientes muito diferentes entre si.

