
Por Alexandre Moniz Barbosa
Como se associa o futebol ao fado? É simples: basta ser português e lamentar o desempenho do país no Mundial de 2026 — desde o empate na estreia frente à República Democrática do Congo, jogo que Portugal deveria ter vencido, até à eliminação, após a derrota diante da rival de sempre, a Espanha. Para os portugueses, aquele empate inicial soube à derrota. O portal Portugal Decoded intitulou a sua reportagem sobre a partida: “Não é à toa que o fado trata de sofrimento”, acrescentando: “Esqueça o futebol. O sofrimento é o verdadeiro desporto nacional… Mas ainda não acabou.”
Há alguns anos, a BBC descreveu Portugal como “o país europeu que adora ficar triste” e reforçou essa ideia, escrevendo: “Se perguntar a um português como ele está, a resposta mais entusiasmada que pode esperar é ‘mais ou menos’.”
E como foi o desempenho de Portugal no Mundial? Para o resto do mundo, a resposta poderia ser “mais ou menos”, mas, para os portugueses, foi, como um deles me disse, “uma desilusão”. Talvez mais triste para eles do que para qualquer outra pessoa. A imprensa também não foi nada elogiosa. Depois daquele primeiro empate, o Público, com uma fotografia na primeira página, escreveu: “Mau resultado, péssima exibição”, enquanto o Diário de Notícias destacou: “Empate com sabor à derrota”.

Boneco gigante de Cristiano Ronaldo na paisagem do estado indiano de Kerala construída pelo Departamento de Turismo
Mas, como escreveu o Portugal Decoded, ainda não estava tudo perdido. Na partida seguinte, Portugal goleou o Uzbequistão por 4–0, com Cristiano Ronaldo a marcar dois golos. O Público, novamente com uma fotografia na primeira página, titulou: “Portugal afasta depressão com goleada e ‘bis’ de Ronaldo”, enquanto o Expresso escreveu: “‘Shiu!’, gritou Ronaldo no Mundial, onde Portugal mandou calar as cigarras”. CR7 voltou a fazer aquilo que melhor sabe: marcar golos por Portugal. Mas essa recuperação duraria pouco.
Quando Portugal perdeu com a Espanha nos oitavos de final, a imprensa foi bastante mais benevolente com a Seleção — embora nem toda. Um comentário no Público dizia: “Portugal adormeceu na siesta e vai ver o resto do Mundial em casa”. Talvez uma das referências mais reveladoras tenha surgido na SIC Notícias, cuja publicação nas redes sociais afirmava: “Desta vez não houve padeira que nos salvasse. Portugal eliminado do Mundial pela Espanha”. Trata-se, naturalmente, de uma alusão a Brites de Almeida, a célebre Padeira de Aljubarrota, que, segundo a tradição, matou sete soldados castelhanos na batalha de 1385, vencida por Portugal.
Para um país que ambicionava — ou talvez devêssemos agora dizer esperava — regressar a casa com o troféu, o futebol apresentado esteve longe de corresponder às expectativas.
Aquele primeiro empate soube à derrota e a maior estrela da equipa chegou mesmo a ser apelidada de “estátua”. A imprensa internacional também não poupou críticas a Cristiano Ronaldo, que disputou o seu sexto Campeonato do Mundo aos 41 anos. A sua prestação ficou aquém daquilo a que habituou os adeptos, e houve mesmo quem defendesse que não deveria ser titular. Mas poderia ele começar o jogo no banco?
Se isso acontecesse, o que seria dos seus milhões de adeptos espalhados pelo mundo? Um adepto de origem goesa e portuguesa, que viajou para os Estados Unidos e assistiu a dois jogos de Portugal, enviou-me uma mensagem do estádio: “Há mais fãs do Ronaldo do que fãs de Portugal.” E havia muito de verdade nessa observação. Se Portugal teve apoio neste Mundial, isso deveu-se, em grande medida, à legião de admiradores de CR7, que concentrou o seu entusiasmo na seleção que ele representa.

Cristiano Ronaldo, Messi e Neymar na paisagem do estado indiano de Kerala
Não há novidade nisso. Há quatro anos, no Catar, a realidade era semelhante. Portugal contava com enormes massas de adeptos graças a Ronaldo, cuja popularidade se estende até à Índia. Basta olhar para as páginas das redes sociais — sobretudo as de adeptos do estado de Kerala — onde abundam fotografias e vídeos de Ronaldo, com enormes estátuas de CR7, algumas mais altas do que edifícios de três andares, e murais à beira da estrada com mais de sessenta metros de comprimento. Uma dessas páginas, a Portugal Family Kerala, reúne cerca de trezentos mil membros — mais de metade da população de Cabo Verde, a antiga colónia portuguesa que também se destacou neste Mundial.
O Campeonato do Mundo de 2026 terminou para Portugal, mas o país já pode voltar as suas atenções para 2030, quando organizará a competição em conjunto com Espanha e Marrocos. Até lá ainda faltam quatro anos. Entretanto, Portugal terá de se reorganizar sem a sua maior estrela e esperar que, em 2030, o fado deixe de ser apenas sinónimo de sofrimento. Tudo dependerá, naturalmente, de até onde a Seleção conseguirá chegar.
E enquanto as seleções travam as suas batalhas em campo, para o resto de nós em Goa — que temos deitado tarde e acordado cedo para acompanhar os jogos — o Mundial nem sempre se mede em pontos, mas em golos. Até agora, esses não faltaram. Ninguém se pode queixar disso. Mas muitos dos que leem este texto estarão, certamente, a lamentar a eliminação de Portugal ou, quem sabe, a entoar um fado melancólico.

Alexandre Moniz Barbosa
Alexandre Moniz Barbosa é jornalista/escritor/editor residente em Goa, na Índia. Foi editor executivo do jornal “O Heraldo” e editor residente do “The Times of India” e da revista “Goa Today”. Publicou vários livros e foi o vencedor do concurso bienal de contos goeses de 2013. O seu último livro, “Colonial Sunset”, tem como pano de fundo a libertação de Goa.

